FOTOEVASÃO

Este espaço será essencialmente dedicado aos participantes nas diversas actividades, sendo um local de divulgação dos trabalhos fotográficos, textos e outros testemunhos das vivências dos nossos clientes.

19 de Janeiro de 2010

"AUTOCARROS DE MALTA " por Carlos Ribeiro

MUSEU CIRCULANTE DOS TRANSPORTES PÚBLICOS

No ar pairava um cheiro gorduroso a gasóleo. Em VALLETTA SQUARE, terminal rodoviário da capital de Malta, o movimento de autocarros e pessoas é incessante. Tudo acontece junto a uma das principais entradas da cidade e ao redor de uma rotunda de proporções generosas, que serve de base à TRITON FOUNTAIN. Para quem chega ou parte em transporte público, aqui é o centro do Mundo.

Malta é uma ilha isolada no Mediterrâneo, desde sempre encruzilhada de civilizações e de eternos interesses estratégicos entre África e a Europa. Por momentos sinto-me no continente negro. A organização do espaço, o colorido das vestes dos transeuntes, as lojas de comida e ‘quinquilharias’ utilitárias, a par com sonoras semelhanças na linguagem com o árabe, transportam-me para outras paragens. Mas no meio da confusão os meus sentidos devolvem-me à Europa, não à continental, mas para um local mais exótico, que desperta os sentidos e nos faz sentir a enorme mescla de culturas que é o espaço europeu.

A minha presença tinha um objectivo, ver de perto e fotografar os autocarros da PUBLIC TRANSPORT ASSOCIATION, facilmente reconhecidos pelas fortes cores laranja e vermelha das carroçarias, oferecendo um dinamismo e um calor simpáticos à paisagem, castigada pelo Verão seco e prolongado.




O mais fascinante da frota que compõe os autocarros do país não são, não obstante, as suas cores. O interesse reside nas viaturas em si mesmas que apesar da sua respeitosa idade, são mantidas a funcionar de uma forma surpreendente, transformando-as num autêntico museu em movimento da história da indústria automóvel, desde a década de cinquenta do século passado, até aos nossos dias.

Para mim o dia tinha começado cedo. Para chegar à central de camionagem tive que fazer a ligação entre as duas principais ilhas do arquipélago de barco e de seguida cumprir um circuito de quase hora e meia num destes exemplares. O velho senhor, um BRITISH LEYLAND que à muito deixou de contar a idade, apresentava-se reluzente, pronto para enfrentar os pouco mais de 60 km do trajecto. Carregado de passageiros, a maioria turistas que como eu apresentaram uma nota de demasiados euros para pagar os 0.58 cêntimos do bilhete, deixaram o motorista pouco bem disposto com os trocos e a fazer múltiplos cálculos para não se enganar. O euro só foi introduzido este ano e não há arredondamentos.

Estrada a cima, a gemer com o peso e com a suspensão a reclamar amargamente as irregularidades do asfalto, o motor bem aproveitado vencia com surpreendente agilidade as constantes subidas, para de seguida mostrar o seu melhor para ajudar a reduzir a velocidade nas inevitáveis e sinuosas descidas. O pitoresco tem um preço e depois da primeira meia hora de bolandas, poucos davam mostras da curiosidade inicial para procurarem algum conforto para o amassado corpo na interminável viagem.



As opiniões dividem-se sobre a condução nas estradas de Malta. A tese de conduzirem pelo lado da estrada em que há sombra não faz sentido pela notória falta de arvoredo. Estou em querer que o problema não reside no facto de conduzirem pela esquerda; a dificuldade reside em não ter ficado esclarecido que não se conduz pela direita. A confusão é grande, a polícia tem mais que fazer que patrulhar as estradas, a condução ‘criativa’ é a norma e estão todos ruidosamente habituados, excepto um casal de ingleses ao meu lado a arquitectar planos para meter toda a gente na cadeia.

Os jornais não noticiam acidentes na estrada. O sistema funciona...

Com o aproximar da cidade, é menor o espaço e muitos os carros com pressa de chegarem ao próximo engarrafamento. O número de autocarros de serviço suburbano aumenta a olhos vistos e com eles as ruas ganham colorido. Os meus colegas de viagem deixam de reclamar e pronunciam um enfático, “Incredible!”. Ninguém fica indiferente ao desfilar destes bonitos e elegantes donos do asfalto. Sinto-me transportado para os meus anos de meninice quando vinha às Caldas na carreira dos Claras.

No terminal não me consigo decidir. Afinal por onde começar? Não há guia, a entrada é gratuita e o museu está aberto todos os dias do ano, dia e noite para quem o quiser visitar. Ao todo e desde que fundada em 1977, a empresa detém 508 unidades activas, das quais 254 permanentemente ao serviço, garantindo o transporte de passageiros em toda a ilha e na época escolar o transporte dos alunos para as escolas. Pela viagem mais longa um passageiro sem passe paga 1.00€, explicando assim as enormes caixas cheias de cêntimos, para quem, como eu, fui convidado a ir ao bar trocar o dinheiro do bilhete se queria mesmo embarcar.

Ao meu lado, por todos os lados aparecem autocarros Vintage com as suas carroçarias de linhas arredondadas a assinalar modas de tempos, que por aqui continuam actuais. Painéis impecavelmente pintados e cromados reluzentes a fazerem justiça à criatividade dos pintores e bate chapas capazes de manterem como à saída da fábrica modelos Bedford, AEC, British Leyland e Ford, entre tantas outras marcas, num estado irrepreensível graças ao engenho nascido da necessidade das antigas garagens familiares, concorrerem entre si para apresentar os mais atractivos e confortáveis autocarros, factor de distinção e rivalidade comercial.




Com o litro do gasóleo a 1.20€ e os preços dos bilhetes simbólicos, não admira a necessidade de com poucos recursos e muita determinação fazer funcionar de uma forma brilhante estes veículos fundamentais no dia a dia.

Cada viatura é uma obra de arte. À partida por serem da mesma cor todos parecem iguais. No entanto, um olhar mais atento, revela construtores distintos, com os modelos a patentearem as diferentes épocas da sua construção. O mais interessante é no entanto cada unidade ser única e personalizada. Ao longo das décadas as necessidades de manutenção deram origem a profissionais especializados na reconstrução das mecânicas e restauração das carroçarias que, para além dos passageiros, transportam um simbolismo econográfico digno de estudo, directamente relacionado à cultura e misticismo religioso dos malteses. Quem não se lembra no passado nos nossos camiões frases do género: Deus te guie?

Fanáticos pelo futebol (na altura ainda não tinham perdido por 4 a 0 com a nossa selecção), caso contrário não me atrevia a responder prontamente que era português, o que representou sempre um problema, pois a curiosidade morria com a resposta. Onde diabo é esse país? ou, nunca ouvi falar. Garantidamente não foi um problema de comunicação...

Emblemas de clubes, marcas de camiões, e todo o género de referências ligados à indústria automóvel, tudo serve ao imaginário de quem vive isolado numa ilha, desde que colorido e estético para a decoração dos autocarros, calculada com mestria e assinada com orgulho pelos seus autores.

A ameaça a este museu circulante da história automóvel, ex-libris do país e parte integrante da sua tradição, vem no entanto de fora, de Bruxelas, segundo o The Times – edição local. Os burocratas da Comunidade preparam-se para impor normativas e novas regras para o sector que esperamos melhorem aspectos como os níveis de poluição e segurança mas preservem tudo o resto, a bem do direito à diferença e preservação para o futuro dum património nostálgico e insubstituível.



UM MOTORISTA DE RELÍQUIAS

Carmel tem 60 anos, casado, pai de 3 filhos, motorista de autocarros à 42, trabalha 6 dias por semana nas carreiras dos urbanos nos arredores de Valletta, capital de Malta, com o seu Ford Thames. Hospitaleiro, bem disposto e de sorriso aberto, convida-me a entrar no seu local de trabalho e fala com orgulho do seu autocarro, quase da sua idade.

– Os passageiros gostam de viajar comigo, gostam da minha condução. Nunca tive acidentes. Estás a ver este homem? (aponta para uma imagem do Sagrado Coração de Jesus). Este é o meu guia. Com ele sou feliz. Ele toma conta do meu destino.

Conta-me num inglês compreensível, mas mesclado com a influência acentuada de outros falares que caracterizam o pequeno território.

Num país de forte cariz religioso, com igrejas e capelas desiminadas por todo o lado, é de compreender a fé de Carmel. Talvez a crença lhe tenha evitado os acidentes, em combinação com a sorte e perícia ao volante. Numa terra com um padrão de condução tão ‘descontraído’, ter um ser superior que olhe por nós, dá sempre jeito.

Aos quilómetros percorridos perdeu-lhes a conta, a ilha é pequena, os percursos curtos mas repetidos diariamente ao longo das últimas quatro décadas. As marcas do tempo não estão no autocarro (esse pode ser sempre retocado), os sinais estão nas mãos hábeis ao volante, calejadas de tantas curvas em que a direcção assistida é só para uma minoria de colegas com modelos mais recentes. Se o rosto é a imagem da alma, Carmel é mesmo um homem feliz e realizado com o seu trabalho.



EM PLENO FUNCIONAMENTO

UM DOS AUTOCARROS MAIS ANTIGOS DO MUNDO


Naquele dia já tinha visto dezenas de autocarros, todos com as mesmas cores, todos parecidos, igualmente antigos e estimados. Agachado, joelho acente no chão, concentrado na procura de mais um ângulo para captar fotos das peças deste museu em constante movimento que desfilava perante os meus olhos, sou surpreendido por uma verdadeira relíquia que penetrava nas lentes da minha máquina fotográfica. Este era diferente. Em comparação, os outros tinham acabado de sair da fábrica. Nem podia acreditar.

Apesar da evidente idade, chega ágil e elegante, carroçaria de linhas arredondadas, aspecto aristocrático, perfil inconfundível, com o motor a sair elegantemente pela frente do conjunto, engalanado por reluzentes e enormes guarda lamas pretos. No topo do capot, a encimar orgulhosamente o símbolo da marca, fitas esvoaçam, numa simbologia que foi chic noutros tempos da história automóvel. Era um FORD THAMES.

Adquirido num lote de umas dezenas de unidades, esta relíquia da indústria automóvel chegou a Malta no início da década de 50 do século passado. Hoje, com 56 anos desde a data da sua construção e milhões de quilómetros percorridos, quase parece saído de uma linha de montagem.

Integrado na rede de transportes rodoviários do país, funciona regularmente nos circuitos sub urbanos ao redor da capital, Valletta. Impecavelmente pintado com as características cores laranja e vermelha, cromados a brilhar, sem um traço de ferrugem, é imperceptível que a carroçaria é construída em madeira e resistiu sem sinais aparentes de desgaste a seis décadas de trabalho duro, por estradas sinuosas e cheias de buracos.

Se o exterior impressiona, lá dentro o cuidado com a manutenção é igualmente visível. Bancos forrados em lona azul, pouca espuma, (neste aspecto os passageiros apreciam a chegada ao destino), impecavelmente limpo. No interior espartano sobressai no entanto o posto de condução. Aqui o peso dos anos e uma utilização intensiva mostram as suas marcas. A era do digital é um conceito desconhecido e elementos como os manómetros, alavanca da caixa de velocidades ou o volante, transportam-nos para uma época de outras tecnologias que já foram de ponta e que todos os dias provam a sua fiabilidade.

Nunca avaria, afirma Carmel. Gasta menos gasóleo que os modelos mais novos e não consome óleo. Para me convencer, liga o motor (um PERKINS primitivo) e para minha surpresa, em vez da esperada barulheira típica dos diesel estafados, ouço um doce e suave ronronar, compassado ao ritmo lento da vida por estas paragens, pronto para continuar a devorar kilómetros, com os cuidados atentos do seu motorista.

No calor da conversa, quase esquecemos que a carreira 56 tem horário certo de partida e os passageiros habituados à pontualidade, davam monstras de impaciência em ocupar os seus lugares e seguir viagem para os seus destinos, sem pompa, mas com estilo, abordo de um dos autocarros em funcionamento mais antigos do mundo.




Texto e Fotos: Carlos Ribeiro, fotografo e viajante

Reportagem efectuada com o patrocínio da escola de línguas: The English Centre

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