«O mesmo oceano, outras "artes" de pesca» por Carlos Ribeiro
NA GÂMBIA O ATLÂNTICO É GENEROSO, OS PESCADORES CORAJOSOS E OS MEIOS RUDIMENTARES
O mar é a grande paixão. A proximidade de Peniche, as visitas ao porto, ver carregar as redes e descarregar o peixe preencheram grandes momentos da minha meninice. Foi aqui que aprendi a gostar do mar, a respeitar o trabalho dos pescadores e a sonhar com paragens longínquas.
Mais tarde, a aventura dos descobrimentos aprendida nos bancos da escola, empolgada pela retórica de época, criou o orgulho nos nossos navegadores, um bom aluno de história e o sonho em visitar os cabos de todas as tormentas e a conhecer os adamastores espalhados pelas costas de África.
Dentro ou fora do país, não há sitio com barcos e pescadores que não me prenda a atenção e das lentes da minha máquina fotográfica.
A GÂMBIA
Encravado no Senegal, na costa ocidental de África, com uma população estimada de 1.200.000 habitantes, a Gâmbia é o resultado das disputas territoriais entre a França e a Inglaterra, depois da chegada dos nossos navegadores no século XV que depressa ficaram com o domínio do comercio que chegava do interior do continente. Apostados em negócios mais rentáveis, a possessão acabou por ser vendida aos ingleses com todos os direitos comerciais pelo Prior do Crato. Da nossa passagem ficaram vestígios de construções militares para defesa da costa e fortes elos na língua, sendo facilmente reconhecíveis palavras como colher ou chave.
O país, de pequenas dimensões “inventado” nas margens do rio Gâmbia que lhe dá o nome, é um oásis fértil, de clima ameno, desenhado ao sabor de estratégias políticas e militares do momento, abundante em água e com uma costa atlântica de 70km, onde naturalmente foram surgindo dezenas de comunidades piscatórias.
República presidencialista, ganhou a independência de Inglaterra em 1965 de quem herdou a língua oficial, as regras administrativas e o regime legal, tendo como presidente Yahyaja Mmeeh que gere o país em regime ditatorial.
A produção de amendoins e o turismo são as suas principais indústrias.
A chegada do peixe à praia
A PESCA
Vital para a economia do país devido à alimentação barata que oferece à população, permite exportar o excedente para os países do interior e é fonte importante de emprego. Praticada de forma artesanal, pescadores e vendedores são a parte visível de um mundo onde laboram milhares de pessoas que garantem a sua subsistência em actividades ligadas em cadeia ao sector, numa rede que obedecendo às regras de mercado gera riqueza e prosperidade, fundamentais numa economia assente nas actividades primárias.
TANJI - UM DOS MAIORES CENTROS PISCATÓRIOS DA GÂMBIA
Entalada entre a estrada que liga a capital Banjul ao Sul do território, Tanji é uma aldeia com cerca de 1000 habitantes que se espraia ao longo do areal e assenta a sua actividade numa infra-estrutura rudimentar. A praia é o centro da vida social e económica da aldeia, é ali que tudo acontece. Os barcos saem ao mar e logo olhos treinados perscrutam o horizonte. O regresso significa peixe, e peixe o dinheiro que todos precisam.
À espera do peixe fresco
As canoas maiores não aportam na praia. Pairam ao largo comandado por mestres altivos. Ao avistamento das embarcações, raparigas correm em disputa pelo primeiro e melhor peixe que na praia entregam a mulheres mais velhas que o levam até uma “frota de carros de mão”. Na descarga dos cabazes tem início uma disputa entre compradores e vendedores essencialmente mulheres de fortes pulmões e grande diversidade de vocabulário. A discussão é dura mas não deixa sequelas.
À procura do melhor peixe
Longe dos regateios, grupos de mulheres decoram a praia sentadas com os seus vestidos tingidos de múltiplas cores, amanhando por conta dos compradores. Mãos hábeis e calejadas rasgam o peixe com golpes certeiros num frenesim imparável, antes de seguir para a secagem ao sol, fumagem ou directamente para o mercado. Todos participam, todos têm algo a ganhar.
Cheira a África!
Amanhando o peixe na praia
DA DESCONFIANÇA À HOSPITALIDADE
Penetrar no meio é duro. Todos os olhares se concentram em nós, desconfiam da máquina fotográfica, da cor da pele e é impossível ignorar os olhares penetrantes e gestos de desagrado.
Adoptado por Abdul de 8 anos e Mulh de 12, graças ao Ronaldo passei a ser o centro de todas as atenções. Um pequenote agarra-me pela mão e acompanha-me por todo o lado. Impossível resistir… Com o passar do tempo todos pedem para ser fotografados, deixam de pedir dinheiro e começam as confidências. Os gambianos são simpáticos por natureza.
Uma boa parte dos residentes são imigrantes senegaleses, do Gana ou Mali, a maioria não documentados. Os homens que remendam as redes são os mais mal pagos e não fazem segredo. Todos vivem no mesmo areal e trabalham para o mesmo fim, mas apesar do bom relacionamento está bem delineado o espaço de cada comunidade. Outro identifica-se como policia e reclama a falta de dinheiro. Por momentos sou o balcão de todas as reclamações. Lamin, 38 anos, casado, 3 filhos, é controlador da descarga das canoas. Recebe por dia 100.00 Dalasis (três euros). Queixa-se amargamente de não ter dinheiro para mais que uma esposa. Sinal de estatuto e riqueza, outros ha que têm 6 mulheres. O desapontamento é total quando digo que em Portugal também é o mesmo. Há desemprego, falta de dinheiro e os portugueses só têm dinheiro para uma mulher.
O Atlântico é generoso. Mais a Sul as águas são mais quentes, as espécies abundantes e diferentes, o mar lá como aqui é uma fonte de vida e riqueza.
O dinheiro é curto mas os gostos exigentes. O peixe mais apreciado é o maior, Barracuda, Lady fish, cat fish, entre dezenas de muitos outros são os mais disputados na “lota” e no mercado. Gostam do peixe sem espinhas. As montras dos hotéis e restaurantes de luxo convidam turistas e os mais endinheirados a degustar o marisco (em tradução directa).
As nossas portuguesas sardinhas eternizadas na brasa são anatomicamente diferentes. De pele mais clara, sem manchas e mais gorduchas, mal chegam a terra acabam na ponta do cutelo onde são peladas e estripadas sem dó nem piedade, para depois serem moídas e vendidas em bolinhas como almôndegas. Apreciado petisco para os locais, grande desperdício para mim…
Cai a tarde, melhora a luz, o dia está limpo e a temperatura é amena. Está-se bem na praia… Empenho-me a fotografar e a captar o ambiente temperado pela maresia e o vai e vem constante de barcos e pessoas que se atropelam no areal. Nas lojas alinhadas na areia, emergem figuras rodeadas pela desordem. Com olho atento e destros nos trocos aviam a clientela. Tudo se vende, de amendoins a telemóveis. Um vendedor ambulante especializado em cigarros oferece-me “Marlboros” à unidade.
Mais abaixo um bando de abutres chega-se demasiado próximo. Devoram ferozmente as carcaças de todo o que encontram. Os rapazes desesperam. Afinal são os enviados de outros 20 que ao longe “controlavam as operações”. Tal como as aves que as dezenas pairavam sobre a distraída presa, também eles aguardavam a hora de apresentar a factura.
A discussão instala-se. Não há acordo sobre o que pedir. Uns querem dinheiro, outros mochilas para a escola. A tão “esforçado trabalho” e a sorrisos de menino tão abertos, é impossível dizer não. Na impossibilidade de dar dinheiro, ou outros esperados presentes à crescente multidão, compro 2 bolas de futebol que despertaram uma explosão de alegria, com direito a comitiva protocolar até ao carro.
O futuro é que vai determinar. Vão ser pescadores, ou Ronaldos?
AS VIAGENS DE TODAS AS ILUSÕES
As viagens de imigrantes clandestinos rumo à Europa são conhecidas de todos. Impossível não saber o óbvio, sobretudo para quem habita no litoral com praias a perder de vista, zonas isoladas, um mar ameno e falta de patrulhamento. O assunto é tabu. Todos sabem mas ninguém comenta. Para obter informações é preciso conquistar a confiança e essa é uma tarefa que leva tempo.
Vencida a timidez toda a gente tem algo para dizer. Pouco, sem grandes detalhes, uma informação daqui, outra dali lá vão adiantando pormenores. Os construtores de barcos revelam-se a melhor fonte. Maioritariamente originais do Gana, constroem as embarcações num sítio ermo, longe dos pescadores e rapidamente nos apercebemos que vivem num mundo à parte. Mencionar nomes e contactos está fora de questão, ninguém o faz. Têm medo. Eles próprios são clandestinos e chegaram através de uma rede que tem os seus tentáculos sobretudo nos países mais pobres do interior do continente, em que as expectativas de encontrar emprego são quase nulas.
As canoas construídas para pescar foram crescendo de tamanho conforme as necessidades. As maiores usadas no tráfego atingem os 22m e chegam a transportar mais de quatro dezenas de pessoas mais tripulação, sendo exactamente iguais às que vemos com frequência na televisão, notícia de tragédias ou de imigrantes que chegam no limite da resistência física. Elegantes e coloridas, algumas a ostentarem decorações alegóricas e cuidadas, não estão de todo preparadas para o transporte de passageiros, muito menos em alto mar. A bordo não existem confortos e muito menos condições higiénicas.
Construção de canoas
Iludidos por vendedores de sonhos, angariados com promessas falsas, algumas destas vítimas das circunstâncias levam anos para chegarem ao porto de partida e trabalham em condições inaceitáveis para angariar os 400.00€ (assim nos foi dito) que custa a passagem sem futuro e muitas vezes sem retorno.
Impulsionados por fortes motores fora de bordo, a viagem até à costa marroquina é feita com terra à vista sendo impossível, como testemunhamos, identificar ao largo a carga e o destino das embarcações (podem ser de pesca ou de qualquer outra coisa), sendo a única preocupação fugir ao ineficaz controlo da polícia. Bons mestres a navegar, quando rumam a oeste em direcção às Canárias e enfrentam mar aberto entram num jogo devida ou morte em que tudo pode acontecer.
Se um qualquer GPS de bolso pode identificar as ilhas no meio do oceano, este é o troço em que tripulação e passageiros acusam o cansaço de uma viagem esgotante com noites dormidas ao relento e mal alimentados. Para muitos acresce ainda o medo de quem pela primeira vez se faz ao mar. Este é o estágio em que tudo pode acontecer e os relatos dos serviços noticiosos são de todos infelizmente conhecidos.
Com o peso da responsabilidade de quem tem regularmente de enfrentar e resolver no limite o problema nas suas costas e sem resposta eficaz das autoridades locais, não foi surpresa encontrar em território gambiano uma brigada da Guardia Civil espanhola a tentar menorizar o problema numa das suas origens.
Quantos são e de onde vêm é impossível de determinar numa região parca em estatísticas, em que a grande maioria da população não sabe coisas tão simples como a data do seu nascimento.
A NECESSIDADE AGUÇA O ENGENHO
Natural de Dakar no Senegal, Abdul, 40 anos, é um dos muitos pescadores que vivem numa aldeia improvisada no areal sem referências no mapa, excepto pelo facto de estar situada na linha de fronteira entre o Sul do país e a vizinha província senegalesa de Casa Mansa e que rumam às costas da Gâmbia para fazer a época da safra. Ajoelhado no areal assistido por Mohammed de 14 anos, seu aprendiz repara um pequeno motor fora de bordo que se recusa a funcionar.
Abdul e Ahmed dão vida ao motor da canoa
Aproximo-me, cumprimento em árabe e depois em francês conversamos um par de horas. Por experiência há muito que conheço a habilidade dos africanos para sem meios e muito engenho fazerem funcionar qualquer coisa.
O motor fora de bordo, um Yamaha, em Portugal há muito que estava esquecido na sucata. Aqui é visível o número de milhas que empurrou a canoa de Abdul e pela idade e bons serviços prestados bem merecia o descanso da reforma.
Os motores são muito caros diz-me, para com mãos hábeis e uma paciência de africano com a ajuda de um canivete, chave de estrelas e chave de caixa, desmontar peça por peça as entranhas da máquina até detectar o problema. A operação foi ainda aproveitada para ir ensinando ao menos paciente ajudante a “arte de rejuvenescer motores fora de bordo”.
A falta de meios tem um preço, o tempo. Por aqui ninguém se queixa com esse detalhe. A excepção pareço ser eu que apostado em ver os resultados vou olhando com impaciência para o relógio.
Era o circuito de alimentação, indica Abdul com triunfo, apontando para o emaranhado de cabos e peças que conduzem a gasolina ao seu destino. Com água misturada não funciona, afirma peremptório.
Um bidão velho serve de suporte, dois esticões decididos e voilá…
Se a época correr bem, Adul espera ir a casa na época das chuvas para ver a família e participar nas festas da sua aldeia. Inshallah… (se Deus quiser).
Texto e Fotos de Carlos Ribeiro, Viajante e fotógrafo
Reportagem elaborada com o patrocínio do The English Centre


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